competência infantil de simplificar

Estava passeando por alguns blogs quando minha filha chegou, se postou ao meu lado e, depois de olhar, perguntou o que estava escrito no cartaz que aparecia numa foto… convidei para que lêssemos juntas, afinal está em fase de alfabetização… após alguns minutos de leitura, conseguimos entender que o que estava escrito era:  “Eu quero a cura do fundamentalismo religioso”.

Ela olhou pra mim, na certeza de seus 6 anos, e disse: “não seria melhor dizer: não quero mais brigas!” e emendou: “chega desse mundo injusto!”. Sorri, olhei pra minha menina e só consegui dizer “você tem razão, meu amor!”.

Como de costume, me encantei com sua fala e, principalmente, com a competência de simplificar. Crianças são muito mais hábeis que nós adultos na arte de dizer o que precisa ser dito, de forma direta e clara.

Alguns dizem que isso acontece porque crianças são incapazes de fazer elaborações mentais, outros afirmam que elas são menos preocupadas em atender as expectativas do interlocutor, existem também aqueles que garantem que a percepção infantil é ingênua e desprovida de preconceitos.

Poderíamos compreender essas explicações, e tantas outras, concordar, discordar e até discuti-las por horas e horas sem fim, porém prefiro aproveitar o aprendizado que ela estimula, de que a simplificação da fala pode ser muito eficiente na transmissão do conteúdo.

competência infantil de duvidar

Nós adultos temos o costume, hábito, pretensão de sabermos muito, às vezes, tudo sobre algum tema. Acreditamos ser possível conhecer por completo determinada matéria, seja ela qual for. Ainda achamos viável, esgotar algum assunto e ser um expert absoluto.. Quanta pretensão a nossa! 

Minha afilhada, fez 7 anos, e dei um dicionário de presente, logo ela começou a brincar de descobrir palavras (yesss! o objetivo era esse mesmo) até que um dia… o seu simples dicionário infantil não tinha a palavra que ela queria conhecer melhor e foi pedir ajuda ao pai, para tranquiliza-la ele garantiu que assim que estivesse lendo com fluência providenciaria uma versão maior, mais completa e com o significado de todas as palavras. Ela inteligente, conectada, atual que é, disse ser impossível existir um livro que tenha tooooooodas as palavras. O pai ainda insistiu que esse dicionário existe e ela mais uma vez duvidou, o pai reafirmou, ela disse que queria ver e minutos depois a conversa terminou. Encerrada a conversa o pai se pegou pensando: “será que tem toooodas as palavras, mesmo?”

Adorei esse episódio! Muito emblemático da nossa evolução, as crianças contemporâneas são mais questionadoras do que nós fomos e também mais conscientes de nossas limitações humanas.

Acho sensacional que a criança não acredite e questione se é possível existir um livro que tem tudo sobre algo quando estamos conectados a uma rede mundial de informações que nos apresenta novidades todos os dias.

Essa competência que as crianças têm de duvidar de nós, mesmo quando confiam inteiramente, me fascina, assim como a possibilidade de (re)descobrir o mundo a partir dos estímulos que elas nos proporcionam.

estranheza pós-parto

Quantas de nós já olhou para seu bebê, recém-nascido, ali enroladinho na coberta, dormindo depois de muito chorar e se perguntou: “o que foi que eu inventei?” ou como diria a mãe da minha sogra: “onde eu fui amarrar o meu burrico?”, ou então “será que não deveria ter esperado mais?”, ou ainda “por que comigo?”, ou…

Com frequência essas dúvidas vem acompanhadas de sentimentos controversos, cansaço, às vezes, dores, medo, curiosidade, preocupação, e… Chamo essa esquisitice que nos domina e que enche de angústias nossa experiência de mãe de estranheza pós parto.

É comum falarmos da depressão pós-parto, um quadro clínico muito sério e que requer cuidados profissionais apropriados, mas e a estranheza pós-parto? Por que não falamos dela?

Poderia apresentar vários motivos e justificativas, porém prefiro investir meu pensar em buscar formas de aproveitar essa estranheza como experiência de crescimento e não de sofrimento.

Se você está passando por isso hoje, ou esses dias, respeite seu momento, autentique sua experiência, cuide de você e converse mais… isso, fale sobre o que está vivendo, não se importe se parecer que está se lamentando, que está reclamando da vida, e se for o caso e a vontade, reclame!

Converse com outras mães, de filhos pequenos, médios ou grandes, não tenha vergonha!, tenho certeza que você vai encontrar outras tantas com experiências semelhantes e diversas das suas.

Questione sua mãe como foi quando você nasceu, pergunte a suas tias, vizinhas, avós, amigas, comadres, sogra… perceba que cada uma reage da sua forma e como o passar do tempo (a saudade?)  nos ajuda a elaborar as experiências. Tenho certeza que essas conversas vão te ajudar a (re)conhecer e viver melhor essa estranheza que nos domina.

é necessário aprender!

Assim que o bebê nasce, a mãe nasce também! Será?!?!?!

Dizem que toda mulher já vem ao mundo pronta para ser mãe, que basta a criança nascer, a função liga e a mãe aparece.

Pra muitas mulheres pode realmente ser assim, e pra outras tantas não é não!

Algumas afirmam que assim que olhamos para o nosso filho temos a certeza de que já o amamos e que já o conhecíamos desde sempre… acho essa ideia muito bonita e poética, porém sei que não é assim com todo mundo.

O filho que já conhecemos é aquele que idealizamos, que gestamos, que aguardamos, e não aquele ser pequeno, o real que chegou e está ali na nossa frente esperando pra mamar, ser trocado, ser ninado, que chora e nos (des)espera.

A ideia de que a mãe nasce imediatamente é tão arraigada que é comum nos culparmos por não ter acontecido conosco, nos cobrarmos os conhecimentos e sentimentos que ainda  não temos.

Acredito que para nos tornarmos mãe (efetivamente) precisamos conhecer nosso filho, nos apresentar a ele, saber como aquela pessoa que está ali a espera de cuidados reage, se comporta, qual o seu jeito e para isso é necessário tempo, trocas, convivência, intimidade e…

Assim como a maior parte das vivências e experiências da vida, é necessário aprender, inclusive a ser mãe, não aquela mãe ideal dos livros e das expectativas e sim a mãe real que cada uma de nós pode ser com cada um dos seus filhos.

inesperados da vida

Tenho o hábito (que alguns chamam de frescura) de tirar as etiquetas das roupas antes de usa-las e costumo fazer isso com as das minha filhas, também.

Dia desses estava nesta tarefa, quase automática, quando de repente me distrai e cortei um pedaço do tecido de uma peça novinha que minha pequena tinha escolhido no dia anterior, pensei imediatamente: putz! Que merda!, e em seguida já imaginei uma ou duas soluções para o ocorrido. 

O desafio então seria contar para a criança o que tinha acontecido com sua roupa nova… assim que ela chegou, eu disse: filha, a mamãe fez uma caca (pra não dizer cagada!), ela me olhou com atenção e perguntou: o que foi mãe? Tive que responder: a mamãe foi cortar a etiqueta e por acidente cortou um pedaço da roupa. E aí veio o momento mágico… ela me olhou com a maior calma do planeta, fez um carinho no meu braço e disse: fica calma, mãe! Não tem problema a Nanna resolve, ela costura e fica bom. E enquanto eu pensava: Yeeeesss!!!, ela começou a relembrar uma situação em que fez algo sem querer e a me dizer que às vezes nós fazemos coisas sem querer, depois disso me deu um beijo e saiu para brincar.

E eu fiquei ali encantada com a reação de minha pequena em seus quase 5 anos, lidando naturalmente com um acidente e compreendendo que isso pode acontecer com qualquer um de nós.

E então me dei conta de que se nossos filhos aprendem e se desenvolvem a partir dos exemplos que damos a eles, e que se sua reação foi essa, é sinal de que estou no caminho certo, pelo menos no que diz respeito a forma de reagir aos inesperados da vida.

ser mãe: amar, gratificar e frustrar…

Ser mãe é umas das tarefas mais desafiadoras da vida de algumas mulheres. É uma oportunidade única de amadurecimento e crescimento pessoal, afinal ser mãe é ser corresponsável pelo desenvolvimento de um ser humano.

Não importa se é mãe de barriga ou de coração, o que a define é a escolha, a dedicação e as atitudes cuidadosas oferecidas ao filho.

Uma das principais funções de uma mãe é nutrir seu filho (não apenas com alimentos!) ela deve sustenta-lo biológica e psicologicamente. E isso só é possível quando há entrega na relação, quando as atitudes são espontâneas, quando a mãe não está apenas preocupada em saciar a fome de seu filho e sim em preencher sua vida de amor e afeto.

Dizem que o amor materno é incondicional, portanto não devem existir condições para que haja o amor. No entanto, é importante lembrar que não é porque ama incondicionalmente que a mãe possa deixar de ter noção de limites e das regras que permeiam o bem estar social e esquecer de ensiná-las ao filho.

No amor materno estão incluídos o sim e o não, o certo e o errado, as gratificações e as frustrações.

Saber a hora de gratificar e/ou frustrar um filho é uma das grandes dificuldades das mães, e a melhor maneira de fazê-lo é usando o bom senso, seguindo a intuição e sendo fiel a seus sentimentos.

Mãe que gratifica a todo momento, sem discernimento, dificulta a humanização de seus filhos e com isso acaba criando pessoas que acreditam que terão tudo que quiserem e no momento que desejarem pela vida afora. Já a mãe que suporta frustrar, desenvolve em seus filhos a habilidade de tolerar o adiamento da satisfação de seus desejos.

Pode-se afirmar, então, que a boa mãe é aquela que é capaz de dizer sim ou não na hora certa, e sabe que a hora certa vai depender da situação que está vivendo e dos sentimentos por ela provocados.

mãe e psicóloga e…

Pra começar nossa conversa, devo confessar que até alguns anos atrás psicologia infantil não me encantava, meu interesse pelo assunto era nulo. Durante a minha formação estudei o essencial do tema, conhecia o que era necessário, não me aprofundei.

Na minha primeira gestação até busquei aprender mais a respeito de crianças, e quando me dava conta o que deveria ser uma leitura de mãe já tinha virado um estudo técnico, me percebia fazendo críticas e discutindo teorias. Desisti!

Com o passar do tempo e a experiência de mãe crescendo comecei a sentir falta de saber mais, e não eram teorias que eu buscava e sim histórias de outras mães, conhecimento popular. Conversava com uma, ouvia relatos de outras, trocava experiências com amigas e assim seguia a vida de mãe.

Até que alguns clientes adultos começaram a aproveitar o espaço de trabalho, de conversa, para questionar a respeito de educação de filhos, de melhores maneiras de agir e passei a incentivar seus pensares, sugerir algumas condutas e então percebi que a psicologia infantil passara a fazer sentido pra mim.

Aproveitando a experiência de mãe e o conhecimento de psicóloga comecei a pensar, ler e escrever a respeito e compreendi que as partes e os papeis até então desintegrados (a mãe e a psicóloga) se aproximavam, se encontravam, se organizavam numa nova configuração.

Hoje reconheço que nesses encontros de partes e papeis existe harmonia, interdependência e respeito, não só entre a mãe e a psicóloga como entre todas as outras – a filha, a irmã, a esposa, a mulher, a cozinheira, a tia, a… -    Não posso dizer que seja fácil, quantas vezes a mãe precisa mandar a psicóloga calar a boca?!, e a filha que às vezes esquece que já virou mãe… , e a mulher que para aparecer precisa mandar todas as outras sumirem! Todas essas (e muitas outras) sou eu! Partes que sozinhas e/ou misturadas serão apresentadas e representadas, a partir de hoje, em textos e imagens de mãe e…