Querida, mãe de primeira viagem…

Meu dia começou com a leitura do desabafo de uma jovem mãe que pedia para ser considerada e ter seu espaço respeitado.

Seu texto emocionado, impulsivo e espontâneo me fez lembrar da “mãe de primeira viagem” que fui, aquela inexperiente que exige ter seu direito de errar respeitado e compreendido.

Surgiu então a inspiração para a carta que segue… da mãe de duas meninas de 5 e 6 anos para aquela que iniciava a jornada.

 

Querida, mãe de primeira viagem,

Prepare-se… a jornada é longa!

Tudo que você está vivendo hoje é só o começo de uma empreitada sem fim.

Confie na sua intuição e acredite que seus erros serão fundamentais para o sucesso.

Saiba que você vai errar muito, todos os dias… algumas vezes terá vergonha de confessar e outras conseguirá dar boas risadas depois que o susto passar.

Ria! Rir é fundamental para a vida de uma mãe, afinal motivos para chorar temos muitos, então sempre que puder (e quiser!) ria muito e gargalhe quando conseguir.

Lembre-se que sua filha é uma pessoa e é parte do mundo, por isso deixe que ela se relacione com outras pessoas e tenha pai, amigos, tios, parentes, avós, padrinhos, vizinhos.

Sua filha só é sua filha, não é sua extensão! Ela tem emoções diversas das suas e gostos diferentes do seus.

Descanse sempre que puder… sua filha prefere você bem disposta.

Ouça todos os conselhos, palpites e pitacos que forem oferecidos a você e aproveite apenas os que considerar interessantes (o restante, jogue fora!).

Escolha o que considerar melhor para você, para sua filha e para a relação de vocês.

Aproveite cada instante junto de sua cria e saiba que o tempo passa rápido, muito rápido!

Acredite… ser mãe é uma aventura que exige coragem, paciência e muito, muito bom humor!

muito carinho e gratidão,

 Mãe de duas ( 5 e 6 anos)

autonomia capilar

Minhas filhas nasceram cabeludas (bem cabeludas!), as duas.

E desde muito cedo frequentam o salão de beleza para cortar os cabelos.

Por escolha (minha!) mantive seus cabelos curtos o máximo de tempo que consegui.

Ouvi muitas reclamações, queixas e choros, era um tal de “assim eu pareço menino”, “todas as minhas amigas tem cabelo comprido”, “por que você não deixa meu cabelo crescer?” e eu sempre me mantive firme em minha decisão de conserva-las com seus cabelos curtos, por achar muito gracioso, bastante higiênico e prático.

Foi um tal de amigas, vizinhas, parentes e mais um monte de gente me criticar, me chamar de “bruxa desalmada”, me acusar de desperdiçar os lindos cabelos que minhas filhas tem, mas nunca me importei porque sempre soube que eu sou a responsável por essas crianças, por sua higiene e bem estar.

Passados alguns anos de acusações e reclamações, considerei que estava na hora de deixa-las experimentarem o tal do “cabelo comprido” e assim foi, continuamos visitando a cabelereira para garantir franjas aparadas e pontas em ordem, mas com o objetivo de deixar os cabelos crescerem.

Hoje seus cabelos estão mais compridos do que nunca e as meninas estão aprendendo a cuidar deles e de si mesmas.

E apesar de já terem descoberto que não é tão fácil assim mantê-los sempre limpos, em ordem, bem penteados e desembaraçados, tem se dedicado a atividade e buscado cada vez mais sua autonomia capilar. 

a natação nos ensinou muito além de nadar!

Era uma vez, alguns anos atrás…

Antonia já ameaçou fazer natação duas ou três vezes na vida, na primeira era bebezinha e fazia aula acompanhada do pai, foram algumas aulas e em seguida ela adoeceu, gripe forte somada à alergia, e a pediatra nos orientou a parar até que se recuperasse completamente; interrompemos por algum tempo e na volta… de novo a tal alergia estava lá, a fez sofrer, nos cansou e paramos mais uma vez.

Naquele verão decidimos que era a hora, não dava mais para ela e Luisa, a irmã, ficarem sem saber nadar. Precisavam pelo menos conseguir “se virar” na água, afinal na casa da Nanna tem um piscinão que elas adoram, além do clube do condomínio, que é muito convidativo.

Então, fomos nós pra natação mais uma vez, agora com Luisa junto.

Tudo organizado, as aulas seriam com um professor conhecido da família. Primeira aula, ótima!, segunda fantástica!, na terceira a surpresa…  o professor entrou em férias e não avisou ninguém.

Quem disse que essas crianças entraram na água, que nada, ninguém quis nem saber!

Voltamos noutro dia e a mesma coisa. Paramos tudo, de novo, decidimos esperar o professor querido voltar para recomeçarmos.   

Passado algum tempo e várias recusas, enfim o dia da reestreia.

Chegamos no horário marcado, Luisa queria muito nadar e Antonia dizia que só ficaria assistindo a aula. Ok! vamos que vamos…

Luisa de maiô, touca e óculos, pronta para entrar quando de repente… travou, empacou na chegada e que nadar que nada, sem chances… então, decidimos ficar na borda, só assistindo a aula, do lado de fora mesmo.

Antonia começou a se aproximar e quis colocar os pés na água, então é melhor vestir o maiô, afinal pode ser que se molhe. Pés na água, em seguida pernas inteiras e por fim, uma brincadeira e outra, quando se deu conta estava fazendo a aula toda e Luisa lá, só assistindo.

Na aula seguinte, quase a mesma cena, Antonia entrou empolgada com as brincadeiras e atividades e Luisa, ficou de fora, só olhando o que acontecia. Mais uma ou duas aulas com o mesmo cenário, até que resolvemos chegar mais cedo, antes das outras crianças e ver o que aconteceria.

Luisa como uma habitué que não era, entrou, empoleirou no “tio” e fez a aula toda, a pequena conhecia todas as músicas e atividades, (isso me remete a outro tema importantíssimo – mesmo sem ser convidada ou sem fazer parte oficialmente do acontecimento, a criança que está por perto assiste, acompanha e assimila muito do que se passa, por isso precisamos de atenção e cuidado sempre!), Antonia dessa vez ficou mais retraída, menos a vontade, quis parar antes do habitual e até chorou alegando cansaço. Luisa saiu empolgadíssima e já se considerando uma “nadadoura” como costumava dizer.

Na aula seguinte, Luisa entrou e nem se preocupou com o entrono, já Antonia entrou e logo em seguida quis sair, chorou, chorou, chorou, disse que estava muito cansada, que não aguentava mais.  Como mãe, minha primeira ação foi dar uma forçada para que ela voltasse, mas diante de sua recusa, aceitei a situação e ficou por isso mesmo.

Dias depois, voltamos e mais uma vez Luisa entusiasmada foi para a aula, enquanto Antonia recusou-se até a vestir o maiô. A mãe aqui, com seu hábito quase automático, começou a pensar quais seriam as causas desta recusa, a primeira hipótese foi a velha e tradicional competição entre irmãs, afinal Luisa parecia mais hábil que Antonia e isso poderia estar lhe causando grande frustração, pois a irmã mais nova e que começou depois parecia ser melhor que ela.

Ah! Vale contar que esta foi a primeira atividade dirigida que elas fizeram juntas (isso mesmo!), além das brincadeiras caseiras, em família, elas não faziam nada juntas, no balé cada uma estava numa turma, na escola cada uma tinha sua classe, então a natação era a primeira atividade formal em que as duas eram do mesmo grupo, que compartilhavam regras e orientações de um mesmo professor simultaneamente.

Com essas ideias borbulhando, fui conversar com o professor, queria saber mais, e até me justificar pela saída inesperada de Antonia. E ele, a partir de seu olhar de instrutor, me contou que realmente depois que Luisa se empolgou com as aulas, Antonia passou a se retrair e não aproveitar tanto, e que ele notava uma preocupação excessiva dela com a irmã mais nova, chegando até a chamar a sua atenção para que ele ficasse atento a sua irmãzinha.

Olha só! Eu preocupada com a competição fraterna e na verdade o que a estava angustiando era a preocupação a proteção; não que uma seja melhor ou pior que outra, são apenas sentimentos e vivências diferentes que a relação entre irmãos proporciona em nossas vidas.

Pensei, pensei mais um pouco e resolvi me organizar, e me sacrificar (no melhor sentido!), para que cada uma ficasse em um horário diferente de natação. Combinei com Antonia que a levaria em outro dia pela manhã, afinal no fim da tarde ela dizia estar muito cansada. E como sabemos quando estamos cansados (ou com fome, ou sono) nossos sentimentos e sensações ficam exacerbados e nos fazem sofrer muito mais.

Chegou o tal dia e a surpresa novamente, recusa total de ir à aula. Conversei e quis saber mais, mas sem chances.  Estive a ponto de desistir da ideia de natação, tive receio de que forçando Antonia ficasse mais arisca à água e passasse a ter medo de piscina, mar e outros meios aquáticos. Mas não! Resolvi que continuaria insistindo, pois meu objetivo era que elas aprendessem a nadar, como sobrevivência, se depois disso quiserem ter a natação como esporte de escolha, ótimo!, se não, tranquilo!, pelo menos poderíamos brincar juntas sem medos ou nóias e nem boias.

Conversei daqui, dali, me informei e resolvi leva-la para a aula de uma “tia”, que já havia sido sua professora em outra ocasião. Quando chegamos, quem estava na piscina era “outra tia” (confesso que fiquei tensa!) que a recebeu com atenção e começou a aula. No inicio estava retraída, mas com os minutos foi se soltando até que estava completamente solta e desenvolta (ufa!).

Parece que, para Antonia, a atenção e o cuidado feminino da “tia” tornaram o nadar possível e suportável e assim ela conseguiu se soltar e passou a se arriscar.

Algumas aulas depois, por questões práticas,  Antonia e Luisa voltaram a fazer aula juntas e assim seguem até hoje.

 

visita indesejada

Escarlatina!

Até ontem, era apenas uma das palavras da música dos Titãs.

Hoje é uma visita indesejada que nos incomoda, aqui em casa.

Não que ela tenha chegado agora, está conosco há alguns dias, mas só ontem descobrimos seu nome, sobrenome e características.

Visita que não convidamos, veio por conta própria e nem sabemos de onde.

Chegou sem avisar, se instalou, nos pegou de surpresa… mas agora que já descobrimos sua identidade, estamos cuidando para que vá embora o mais rápido possível e não deixe rastros.

Certamente, algumas lembranças vão ficar, afinal sempre que uma dessas visitas passa por aqui aproveitamos para criar novas rotinas e momentos inesquecíveis. 

por que você não é igual a todo mundo?!?

Por que você não é igual a todo mundo?!?

Diversos pais e mães já perguntaram isso aos seus filhos e outros pensaram e não tiveram oportunidade, ou coragem, de verbalizar.

Essa é uma pergunta que nasce cheia de angústia, muitas vezes surge como desabafo outras como agressão e costuma vir em explosão, aquela da preocupação, da frustação, da expectativa de que o filho se enquadre nos padrões de desenvolvimento que estão por aí e foram estabelecidos considerando a média da população e ignorando a existência da diversidade.

Enquanto gestamos um filho, imaginamos como ele será, quais serão suas preferências, com quem vai se parecer, como será seu jeito, … sempre baseados em como gostaríamos que fosse, em nossos desejos.

Muitos pais enquanto esperam a chegada do filhote lêem, pesquisam, estudam sobre desenvolvimento infantil, conversam com todos os conhecidos e querem saber tudo… quando vai andar, falar, se vai dormir bem, se vai aprender a ler depressa, se… e depois que nasce, então… aí aumentam as dúvidas e começam as comparações, é um tal de “com o filho da Fulana foi bem diferente”, “a filha da Cicrana andou mais cedo que a minha”, “a neta da Maricota já sabe ler”… e as dúvidas e angústias surgem e se multiplicam.

De repente, aparece alguém e nos lembra que cada um é cada um, com seu jeito, seu tempo, suas atitudes, suas escolhas … e que com nosso filho não será diferente, ele terá que descobrir seu modo, encontrar seu caminho e suas preferências. E que, por mais que seja difícil e dolorido, seremos obrigados a aceitar que ele nunca será igual a todo mundo, afinal ele não é filho de todo mundo e sim o filho de cada um de nós. 

ser mãe é padecer num paraíso!

Ser mãe é padecer num paraíso!

Essa é uma expressão muito conhecida e até repetida por algumas de nós, afinal que mãe nunca se sentiu assim?

O que nem todo mundo sabe é que este é apenas um trecho do belo soneto “Ser Mãe” escrito, em 1920, por Henrique Maximiano Coelho Neto* e que apresenta outras afirmações bastante verdadeiras e ainda atuais.

Segue o soneto completo para que você (re)leia e (re)lembre que ser mãe é muito mais do que apenas padecer num paraíso.

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra

o coração! Ser mãe é ter no alheio

lábio que suga, o pedestal do seio,

onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra

sobre um berço dormindo! É ser anseio,

é ser temeridade, é ser receio,

é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,

espelho em que se mira afortunada,

Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!

Ser mãe é padecer num paraíso.

 

*Henrique Maximiano Coelho Neto – escritor e político brasileiro que nasceu no Maranhão, dia 20 de fevereiro de 1864 e faleceu no Rio de Janeiro dia 28 de novembro de 1934. Escreveu mais de cem livros e aproximadamente 650 contos. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira nº2.  Para saber mais clique aqui.

 

quando não é dia dos pais

O dia dos pais passou, a festa acabou e muitas de nós que nos dedicamos a esta data, presenteamos, agradecemos, homenageamos os pais de nossos filhos, nem nos demos conta de que um dia só é pouco.

Nesta data costumamos bem dizer as qualidades, exaltar as responsabilidades, agradecer a parceria e muitas vezes nem percebemos que em boa parte do tempo reclamamos, queixamos e exigimos que eles sejam mais presentes, que participem mais.

Penso em tantas mulheres queridas que, com a melhor das intenções, afastam o pai do filho, dificultam seus cuidados e simultaneamente cobram e culpam a falta de dedicação.

Infelizmente muitas de nós ainda acreditamos que homens são desajeitados e brutos e por isso não tem condições de cuidar de um filho e, baseadas nessa crença, dificultamos a aproximação e o aprendizado.

O pai terá mais chance de ser participante e atuante se aprender (assim como nós também aprendemos!), se for exposto às esquisitices dos primeiros dias, se tiver a oportunidade de acertar e errar no cotidiano de seu filho e se nós formos capazes de suportar seus erros, auxiliar nas dificuldades e reconhecer seus acertos.

Muitas vezes sentimos um “frio na barriga” ao vermos o pai cuidando de nosso filhote, ficamos lá fiscalizando suas ações, corrigindo seus modos e tentando garantir que saia tudo conforme gostaríamos. Nessas ocasiões é comum esquecermos que o pai está fazendo o seu melhor e que por mais que orientemos o “nosso jeito certo de fazer” ele só será capaz de fazer do seu modo, com a sua competência e que certamente será diferente da nossa, afinal somos seres diversos (lembra!?).

 

pra mim, amamentar não foi tão fácil assim!

No início de minha formação profissional, fiz estágio numa maternidade e uma das responsabilidades que o setor de psicologia tinha era o incentivo ao aleitamento materno. Durante aqueles anos aprendi muito sobre o tema, sua importância, algumas técnicas e cuidados que garantiam o sucesso da amamentação.

Com o conhecimento técnico e a habilidade adquiridos, antes de ser mãe e durante a gestação, eu acreditava que minha filha seria alimentada exclusivamente com leite materno até os 6 meses, e após esse período manteríamos o aleitamento por um longo tempo.

Minha primeira filha nasceu linda, fofa, super bem e claro que começou a ser amamentada por mim no mesmo dia, tudo como manda o figurino. Era muito tranquilo, ela mamava e dormia sossegadamente, dormia bastante e eu iniciante achava aquilo ótimo, cheguei até a pensar que tinham me enganado e que tudo era tão fácil. Até que uma noite, sua 7ª noite de vida, foi um terror… a criança só chorava e nada a acalmava a não ser mamar, eu a colocava no peito e ela mamava, mamava e dormia, passavam alguns minutos acordava aos berros e voltava a mamar… foi terrível!!!

Por sorte, no dia seguinte tínhamos a primeira consulta com a pediatra e foi aí que comecei a descobrir que não tinham me contado toda a verdade… minha pequena tinha emagrecido muito desde que nasceu e a tal mamoplastia redutora que eu havia feito anos antes (e que muitos me garantiam que não iria interferir) parecia ser a grande complicadora do processo. Depois de várias observações e possibilidades descobrimos que o ideal seria o aleitamento misto. Nossa sorte foi que escolhemos uma pediatra (fantástica!) que respeita genuinamente seus pacientes e pais e que nos acompanhou no processo que foi bastante complexo, porém possível.

A orientação foi que continuasse com a amamentação em intervalos regulares e ao final de cada uma delas oferecesse uma quantidade de fórmula láctea, assim caso a bebê ainda tivesse fome complementaria a mamada.

Nos primeiros dias me senti muito mal com aquela situação, era um combinado de frustração e tristeza por não ser capaz de alimentar minha filha exclusivamente com meu leite e receio de que ela “largasse o peito”.  Depois fui descobrindo que a pediatra tinha razão e que este processo estava fazendo bem pra bebê, pra mim e pra nossa relação.

Alguns diriam que não teria sido necessário oferecer a fórmula láctea, que deveríamos ter insistido em outras possibilidades e que a mamoplastia redutora não é empecilho para o aleitamento exclusivo, e essas pessoas podem até ter razão. Porém conosco foi assim, adotamos o aleitamento misto e o mantivemos por 7 meses e meio, foi nossa escolha e o melhor que poderíamos ter feito por nós naquele momento.

o início da vida escolar

Minhas filhas começaram a frequentar a escola bem novinhas. A mais velha ingressou no berçário com 14 meses e a caçula com 20 meses, elas eram bebês!

Até hoje, alguns me perguntam o motivo e eu poderia responder que foi porque trabalhava intensamente ou que não tinha outra opção, mas seria meia verdade. As duas foram para a escola cedo porque nós (o pai e eu) escolhemos que assim seria. 

Escolhemos oferecer a elas a oportunidade de conhecer o mundo a partir de suas vivências e de suas escolhas diárias e não apenas das experiências mediadas por nós. Tínhamos a preocupação de que criassem relações e vínculos por elas mesmas, além dos que passam por nós, por nossas avaliações e expectativas.

A mais velha iniciou sua vida escolar quando faltavam alguns meses pra caçula nascer, queríamos que ela tivesse em sua rotina um espaço só seu, um lugar em que não fosse a irmã mais velha, a primeira filha/neta, um ambiente em que ela fosse (re)conhecida por ser quem é.

Eu estava certa de nossa escolha e apesar disso chorei no primeiro dia que a deixei na escola, foi um choro meu (só meu!) no carro, sozinha, constatei que a partir daquele momento a minha pequena seria efetivamente parte do mundo. Pela primeira vez ela estaria sozinha em um ambiente que, em pouco tempo, se tornaria o seu lugar, o primeiro de seus espaços em que eu seria apenas visita.

 

os livros e a leitura

Livros fazem parte da vida da minha história desde sempre.

Lembro de vários que marcaram minha infância e adolescência com carinho especial. Na adultez, eles continuam fundamentais em meu cotidiano, alguns são companheiros de trabalho, outros momentos de lazer, alguns guias de consulta e outros nem me lembro de ter lido.

Gosto de livros de papel (podem me chamar de antiga, atrasada, …) daqueles que têm cheiro, peso e páginas para virar, rabiscar, marcar. Sim! Eu risco e rabisco meus livros, por isso, inclusive, dificilmente peço emprestado. Sei que para alguns é um crime riscar um livro, mas pra mim é uma necessidade, não sei ler sem fazer anotações e sinalizar trechos importantes.

Livros são tão importantes em meu mundo, minha vida, que minhas filhas os conhecem desde muito cedo, lembro delas ainda bem pequenas já manuseando meus livros de trabalho sem o menor pudor.

Em casa elas sempre tiveram acesso livre, assim como nas casas das avós. Tanto minha mãe quanto minha sogra tem pequenas bibliotecas de livros infantis, uma por gosto a outra por profissão, que estão completamente à disposição das netas. Nas três casas os livros ficam em estantes baixas que elas tem acesso e podem pegar e devolver quando querem. Alguns já são clássicos, lidos e relidos inúmeras vezes, outros ainda não foram descobertos.

Meu hábito de riscar e rabiscar os meus livros já gerou alguns probleminhas… as meninas quando eram menores faziam o mesmo, sem entender direito sua função, por simples imitação. Nos livros de casa isso nunca foi proibido, e confesso que até achava bonitinho elas me imitando… já as avós demoraram um pouco pra se acostumar com os rabiscos.

Apesar da presença cotidiana, aqui em casa não fazemos leitura antes de dormir. Acreditamos que livros e leitura merecem total atenção e por isso devem ser aproveitados quando estamos bem acordados e podemos acompanhar a história, os desenhos e complementos. Além disso, nossas leituras costumam provocar emoções, expectativas, curiosidades e outros sentimentos que me parecem incompatíveis com o momento de desligar os motores infantis e adormecer.

Atualmente muitos livros tem sido (re)descobertos e a relação das meninas com a escrita e a leitura está se transformando. A mais velha já quase alfabetizada e a mais nova começando a diferenciar as  letras, então alguns momentos mágicos acontecem em nossos dias.

Ainda existem tentativas de adivinhar as letras e palavras, situações de estranheza com o texto e até cansaço e desistência antes do fim da história, mas aí respiramos fundo, bebemos um gole d’água, às vezes, descansamos e recomeçamos a aventura da leitura.