me desculpe!

Você já pediu desculpas para uma criança por algum exagero seu?

Você pode argumentar que nunca precisou pedir desculpas porque não exagera, ou dizer que todas às vezes que perdeu a paciência e foi rude com sua criança a culpa foi dela e por isso não faz sentido você pedir desculpas, ou então pode garantir que nunca perde o controle e sempre (re)age com delicadeza e gentileza.

Eu confesso, já perdi a paciência, sim! Já fui ríspida com minhas filhas e também já pedi desculpas (muitas vezes!) por exageros que cometi.

Pedir desculpas faz parte da vida humana, afinal nem sempre acertamos no tom de nossas argumentações, nem sempre nosso humor está em sintonia com o das pessoas com quem convivemos, muitas vezes nossa paciência acaba antes do dia terminar e a gentileza fica esquecida em algum canto da vida.

Pedir desculpas é uma atitude de maturidade, afinal para nos desculparmos de algo precisamos nos dar conta e reconhecer que exageramos e/ou erramos.

Pedir desculpas é uma atitude de respeito pelo outro, que foi vítima de nosso destempero, e pela relação que temos.

Pedir desculpas é uma atitude educativa, crianças aprendem a se desculpar quando descobrem que isso é possível, e quando se sentem respeitadas após algum desencontro.

Pedir desculpas não enfraquece e nem desautoriza ninguém, muito pelo contrário, crianças respeitam adultos que se mostram capazes de reconhecer seus exageros, de justifica-los e de se desculparem.

Pedir desculpas não deve ser uma atitude mecânica e impensada, precisa ser refletida, autêntica e baseada na crença de que somos seres em crescimento e desenvolvimento contínuos. 

dia especial

Aquele dia foi especial, um daqueles em que as coisas acontecem naturalmente e no final nos damos conta de quanta coisa mudou nos últimos tempos e quantas outras estão para acontecer dali pra frente.

Já fazia algum tempo que Antonia pedia para trocarmos sua cadeirinha do carro por um assento de elevação, e por vários motivos (principalmente segurança) nós estávamos adiando essa mudança.

Naquele dia, então, decidimos que havia chegado a hora, que faríamos o teste de conforto e segurança e, se desse tudo certo, ela passaria a usar o assento de elevação.

Seus olhos brilhavam, o sorriso iluminava todo o rosto e a alegria transbordou quando ela sentou e percebeu que o cinto do carro já estava na altura adequada e não machucava seu pescoço, ficou lá sentada como se tentando acreditar que aquilo estava acontecendo.

Parece que naquele momento ela cresceu vários centímetros e amadureceu alguns anos, a minha menininha passava a ser uma menina maior, mais segura e confiante.

No mesmo dia, Luisa ganhou sua cama nova…

Luisa dormia numa mini-cama, uma cama pequena e baixa que havia surgido a partir de uma transformação de seu berço. Alguns diziam que parecia uma cama de boneca, afinal era miúda, delicada e toda decorada com adesivos escolhidos e colados pela proprietária.

Ela gostava muito de sua cama e não queria que fosse trocada, porém a criança cresceu, quase não cabia mais no colchão e nós estávamos preocupados em lhe proporcionar maior conforto.

A troca começou a ser imagina algum tempo antes e já vinha sendo anunciada, mas foi naquele dia que tudo aconteceu. Tiramos a mini-cama antiga e colocamos no lugar uma cama maior, porém ainda baixa para garantir o fácil acesso e, principalmente, a segurança em caso de rolamentos.

Quando a criança viu sua nova cama arrumada, parou, olhou, disse: “é! até que ficou boa!” e saiu para brincar. Nós ficamos ali, sem entender muito bem, observando a mudança que havíamos feito e com a expectativa de que ela aproveitaria.

A noite chegou e já era hora de deitar, minha pequena preparou sua cama e pediu que a encostasse na da irmã (elas dormem no mesmo quarto!) para formar uma “cama grandona”. Arrumação feita, crianças deitadas, Luisa me chamou, deu um beijo e agradeceu dizendo que agora já está “quase grande”. 

Sai dali emocionada e certa de que minhas meninas estão crescendo lindamente (como diria minha mãe!) e de que mudanças corriqueiras acontecem e nos mostram que o tempo está passando, que as crianças estão crescendo e que cabe a nós auxilia-las a perceberem seu desenvolvimento e a desfrutarem de cada uma das fases e experiências que vivemos juntos. 

comportamentos não negociáveis

Está circulando no FB uma tabela de regras da mesada, supostamente, feita por um pai para garantir a ordem em sua casa em troca do pagamento integral da mesada de seus filhos.

A ideia não é completamente ruim, afinal educar os filhos é uma tarefa angustiante, trabalhosa e cansativa e muitas vezes procuramos soluções mágicas que possam diminuir nossas dificuldades.

Na tabela estão definidas as regras a serem seguidas, ou melhor, os comportamentos e atitudes que não são aceitos naquela casa. E a definição de regras claras é importante para nós humanos sabermos o que se espera de cada um e do coletivo e qual será nossa punição, caso descumpramos alguma norma.

Neste caso a punição é financeira, e quem não seguir as regras e desobedecer pai e mãe  será castigado e perderá parte de sua mesada.

A mesada torna-se o objeto de troca, um bem precioso que precisa ser zelado e mantido sob atenção e proteção. Dinheiro passa a ser sinônimo de bons modos e o bom comportamento torna-se um bem a ser vendido e comprado.

O problema é que existem alguns comportamentos que não são negociáveis.

Atividades como: escovar os dentes, tomar banho, puxar descarga, usar óculos e aparelho devem ser executadas por questões de higiene e saúde.

Deixar brinquedos, materiais, roupas, sapatos e toalhas jogados ou largados também são comportamentos que não devem ser negociados, afinal estas ações prejudicam o bem estar coletivo e é isso que deve ser explicado à criança (acredite que ela é capaz de compreender!)

Comportamentos que geram desperdício, como deixar torneiras abertas, luzes acessas, porta da geladeira aberta e TV, sky e PS3 ligados, também, devem ser evitados com base em explicações adequadas para cada faixa etária.

Sei que muitas vezes é difícil explicar a importância de algumas atividades e comportamentos, e que precisamos de muuuuita paciência em situações de questionamentos e desobediências, porém vale a pena investir na educação baseada no diálogo e na crença de que a criança é capaz de compreender, aprender e desfrutar as regras da casa, da família e do mundo.

eu também já fui criança!

 

O dia das crianças está chegando e as redes sociais sendo dominadas por fotos de seus usuários na versão “essa é a criança que fui um dia!”, que inspiram comentários e comparações, principalmente, para aqueles que têm filhos.

Fotos são excelentes para lembrarmos e mostrarmos como fomos, nos vestíamos, do que brincávamos e o quanto mudamos ou não, desde lá.  Com as imagens a comparação fica fácil, visível e incontestável.

Além das fotos, outras formas de apresentarmos a criança que já fomos é contando histórias de nossa infância, falando de nossas preferências, ouvindo músicas, (re)lendo livros, visitando lugares significativos.

Aqui em casa temos o hábito de contar nosso passado para as crianças, falamos sobre primos, amigos, viagens, brincadeiras, (des)prazeres, livros, músicas, animais de estimação, lugares onde moramos, escolas em que estudamos, pessoas que se foram e outras que ficaram.

Não temos receio de contar nossas peraltices e dizer que nós também fazíamos bagunça e levávamos broncas, falamos de nossos medos e das descobertas da coragem, de machucados e cicatrizes, e de várias experiências que as crianças vivem e que muitas vezes esquecem depois que crescem.

Minhas filhas adoram conhecer causos das nossas infâncias, ouvem atentamente os relatos, interrompem quando as dúvidas aparecem e checam se alguma informação fica mal entendida.  

Situações divertidas acontecem quando as levamos para conhecerem lugares significativos e contamos sobre pessoas que fazem parte de nossas histórias. Aalgumas vezes despertamos uma curiosidade tão intensa que depois precisamos de muuuuita paciência para responder todas as perguntas.

Falar de nós, da criança que fomos e da infância que tivemos nos aproxima de nossos filhos, sobrinhos, amigos, vizinhos, … saber que nós, os adultos em quem elas confiam, já passamos por situações parecidas com as suas, faz com que se identifiquem e sintam segurança para arriscar, descobrir e crescer. 

mais um encontro entre minha infância e minha filha

Li com Antonia a história de “Marcelo, marmelo, martelo” e foi simplesmente delicioso!

Reencontrei meu livro predileto da infância, aquele do menino perguntadeiro que instigou minhas ideias e curiosidades.

Lembrava dele com muito afeto e quando comecei a (re)ler descobri que lembrava também de algumas frases inteiras e de perguntas que ele faz.

Antonia escolheu o livro na biblioteca da escola, depois de ter visto uma entrevista com Ruth Rocha e se encantado pela autora (e quem não se encanta?!!?), trouxe para lermos juntas.

Seu olhos brilhavam enquanto líamos a história de Marcelo, tudo aquilo parecia tão óbvio, alguns sorrisos se alternavam com deliciosas gargalhadas e frases como: “ele tem razão!” e  “seria bem melhor assim!” e no final uma declaração de identificação que me emocionou.

Senti mais uma vez que o encontro entre minha infância e minhas filhas é importante para nosso crescimento e fundamental para nossa relação. 

o encontro entre minha infância e minhas filhas

Sábado visitamos a exposiçã“Mais de Mil Brinquedos para a Criança Brasileira”, no Sesc Pompéia, e foi simplesmente SENSACIONAL!

Começamos olhando daqui e dali, as meninas pareciam intrigadas, tentando entender o que tantos brinquedos juntos poderiam querer dizer.

Alguns minutos e vários passos depois, tive a impressão de que aquele universo começava a fazer sentido.

Brinquedos inteiros, outros em pedaços, alguns antigos, outros mais atuais, muitos industrializados, outros artesanais, vários em perfeito estado de conservação, alguns bem brincados e até quebrados.

Quando se sentiram à vontade, suas mãos começaram a querer dançar e acariciar tão pequenas peças e grandes brinquedos, orientei que não podiam tocar, mas as mãos pareciam ter vida própria e quando percebíamos já estavam em ação.

Estava ficando preocupada e sem argumentos, quando uma funcionária da exposição veio nos salvar… doce e gentilmente explicou que aqueles brinquedos são emprestados e precisam ser cuidados e devolvidos a seus donos e por isso devemos apenas olhar, sem tocar. Sua fala foi breve, cuidadosa e  esclarecedora para as meninas (e suas mãos!) que imediatamente passaram a se controlar.

Continuamos nosso passeio e a cada novidade e/ou antiguidade mais uma descoberta, bonecas comuns lado a lado com raridades, carrinhos de mil tipos, ferroramas delicadamente cuidados, demonstração da fabricação de brinquedos, pipas, petecas, fogões, panelas, bonecos, robôs, apetrechos, acessórios e muito mais do que poderíamos imaginar.

As crianças pareciam empolgadíssimas com todos aqueles brinquedos organizados cuidadosamente, e os pais (não só nós, muitos pais e mães ali presentes!) simplesmente enlouquecidos, lembrando de suas infâncias, falando de suas experiências, de desejos não realizados, de sonhos adiados, de brinquedos esquecidos e de outros bem aproveitados.

Por alguns instantes me distrai ouvindo aquelas histórias e memórias, que estavam sendo compartilhadas, e observando as crianças conhecendo mais e o melhor de seus adultos.

O grande momento foi quando me deparei com uma boneca “bem-me-quer”. Não me lembrava dela, nem vagamente, mas assim que a vi a memória afetiva surgiu, foi como reencontrar uma amiga de muitos anos, me emocionei, chamei as meninas, mostrei, contei, fotografei, …

Além daquela descobri outras peças significativas e me diverti lembrando e falando de muitas delas.

O passeio foi delicioso e o encontro entre minha infância e minhas filhas aconteceu de forma inesperada e certamente inesquecível.

limites: a importância de dizer o não e o sim!

Crianças precisam de limites! (e nós, adultos, também!)

Manuais que nos ensinam como estabelecer limites existem muitos, cada um deles apresenta sua fórmula infalível que garante limites claros e duradouros, o que a maioria esquece de nos avisar é que nem sempre é tão simples quanto sugerem.

Estabelecer limites (dizer sim, talvez e não!) é habitualmente angustiante e desgastante, afinal estamos aqui para ampliar limites, descobrir e criar novas alternativas e as crianças testam os limites e, mais ainda, nossa paciência.

Limites começam a ser aprendidos no inicio da vida do bebê e, por mais que pareça complicado, tudo acontece tão naturalmente que nem nos damos conta.

Quando, durante a amamentação, um dos peitos esgota ou a mamadeira acaba, quando a brincadeira precisa ser interrompida para trocar a fralda, quando a música acaba, quando a mãe sai, quando é hora de ir embora da casa da vovó, … essas e outras situações cotidianas são os primeiros sinalizadores de que os limites existem, sejam fisiológicos, temporais e/ou comportamentais estão presentes em nossas vidas desde muito cedo.

Se nos damos conta dessas experiências e aproveitamos para aprender com cada uma delas tornamos a tarefa de ensinar limites mais simples e corriqueira.

Quando o bebê cresce, vira criança, e os primeiros limites já fazem parte de sua vida, é chegada a hora de apresentar os limites comportamentais e atitudinais e esses sim são trabalhosos de ensinar.

Limites são importantes sinalizadores do que é esperado e aceito nas relações humanas, e as crianças precisam dessas referências para aprenderem a viver em sociedade e a respeitarem a própria individualidade e, também, cada um de nós.

As referências, as regras, o sim e o não devem ser objetivos e consistentes, apresentados com frases curtas, sem explicações muito longas e complexas (que mais confundem do que esclarecem!) e em linguagem e tom de voz que faça sentido para a criança.

Os limites, as regras, as atitudes e os comportamentos devem ser coerentes e não mudam de acordo com o estado de humor e os interesses imediatos dos adultos. Uma regra é sempre a mesma regra, vale para crianças e adultos e não muda de acordo com as circunstâncias.

 

o menino da bola

bola

Essa imagem me intrigou e provocou diversos sentimentos, pensamentos e sensações.

Na primeira olhada, senti uma tristeza muito forte, tristeza da solidão de cada um daqueles meninos, começando pelo menino da bola e passando por todos os outros.

Em seguida, surgiu a dúvida: “quem é o diferente aí?” ou seria: “quem é o (in)adequado nessa situação?”.

E logo me dei conta, que a melhor resposta para o meu questionamento seria: “depende do ponto de vista!”.

Do ponto de vista dos garotos, é provável que o menino da bola seja o inadequado, o diferente, o esquisito.

Do nosso ponto de vista de adultos, que “sabemos o que é importante”, certamente surgiriam diversos discursos defendendo a necessidade de todos jogarem juntos, e justificando a importância de tirar essas crianças do virtual, e garantindo que é fundamental que os meninos brinquem em grupo e aprendam a dividir, e outros tantos…

Seja qual for nosso olhar para a situação o mais comum é pensarmos em certos e errados, adequados e inadequados e dificilmente nos damos conta de que cada um faz suas escolhas e de que cada um tem suas preferências e peculiaridades.

Se aprendermos (e ensinarmos!) desde cedo a nos colocarmos no lugar do outro, a olhar por outros ângulos, será possível considerar nossas escolhas e diversidades e seremos, no mínimo, um povo mais tolerante e respeitoso.

autonomia capilar

Minhas filhas nasceram cabeludas (bem cabeludas!), as duas.

E desde muito cedo frequentam o salão de beleza para cortar os cabelos.

Por escolha (minha!) mantive seus cabelos curtos o máximo de tempo que consegui.

Ouvi muitas reclamações, queixas e choros, era um tal de “assim eu pareço menino”, “todas as minhas amigas tem cabelo comprido”, “por que você não deixa meu cabelo crescer?” e eu sempre me mantive firme em minha decisão de conserva-las com seus cabelos curtos, por achar muito gracioso, bastante higiênico e prático.

Foi um tal de amigas, vizinhas, parentes e mais um monte de gente me criticar, me chamar de “bruxa desalmada”, me acusar de desperdiçar os lindos cabelos que minhas filhas tem, mas nunca me importei porque sempre soube que eu sou a responsável por essas crianças, por sua higiene e bem estar.

Passados alguns anos de acusações e reclamações, considerei que estava na hora de deixa-las experimentarem o tal do “cabelo comprido” e assim foi, continuamos visitando a cabelereira para garantir franjas aparadas e pontas em ordem, mas com o objetivo de deixar os cabelos crescerem.

Hoje seus cabelos estão mais compridos do que nunca e as meninas estão aprendendo a cuidar deles e de si mesmas.

E apesar de já terem descoberto que não é tão fácil assim mantê-los sempre limpos, em ordem, bem penteados e desembaraçados, tem se dedicado a atividade e buscado cada vez mais sua autonomia capilar. 

(in)justiça!

Antonia, de 6 anos, tem brigado por justiça.

Não a justiça do caráter que está em conformidade com os direitos dos humanos e sim a justiça infantil, aquela que espera que o mundo atenda todas as suas exigências, sejam elas quais forem. 

Sempre que alguém a contraria, não atende seus desejos ou lhe nega algum pedido, surgem os brados: “isso é uma injustiça!” e/ou “injusto! Isso é muito injusto!”.

A primeira vez que ouvi uma dessas acusações me assustei, fiquei sem entender, achei muito cedo para minha filha estar falando em justiça, mas logo compreendi que o que ela estava reivindicando era o cumprimento de suas expectativas.