Linda, a menina triste

Anteontem, dia 10 de setembro, foi o dia mundial de prevenção ao suicídio, e essa data me fez lembrar de Linda, a menina triste.

Linda era uma garota linda, loira, de família bacana e muito, muito, muito triste.

Nos conhecemos logo que entrei no colégio, Linda foi uma das primeiras a me acolher, me recebeu muito bem, compartilhou suas amigas comigo e até frequentamos uma a casa da outra durante algum tempo.

Com o passar dos anos fomos nos afastando, tínhamos interesses diversos, gostos diferentes e ainda não existiam as redes sociais que poderiam ter nos mantido mais próximas.

Apesar do distanciamento, morávamos na mesma cidade pequena, muitas vezes nos encontrávamos em situações sociais e tínhamos alguns amigos em comum. Sempre acompanhei de longe sua doce tristeza e as histórias de desespero que perturbavam seu viver.

Lembro-me perfeitamente do dia em que Linda e um outro colega de colégio chegaram no meu apartamento sem avisar… acho que era sábado de manhã, o porteiro interfonou e anunciou os dois, fiquei sem entender o que poderiam estar fazendo ali e mesmo assim autorizei que subissem. Quando chegaram pareciam ótimos, seus olhos brilhavam e me contaram que estavam namorando, iriam se casar e queriam conhecer o apartamento e o prédio para terem ideia de tamanho, vizinhança… essas coisas de apaixonados que pensam em começar a vida juntos, sabe?!?  Conversamos bastante naquela manhã e apesar do estranhamento da visita, fiquei com a sensação de que finalmente Linda teria encontrado um caminho para a alegria (anos depois soube que não fui a única a acreditar nisso!).

Algum tempo depois, Linda se casou e teve um filho (mais uma vez parecia que iria encontrar a alegria) e mesmo nos momentos felizes de sua vida, a tristeza continuava lá, fazia parte de sua história, a acompanhava o tempo todo, às vezes mais discreta, outras mais exibida, mas nunca a abandonava. 

Para quem olhava de longe, Linda era uma jovem profissionalmente ativa e respeitada, bastante sorridente, mãe de um menino lindo, casada com um cara bacana e que não teria do que reclamar.

Quando chegávamos perto percebíamos a sua tristeza, daquelas que não tem nome nem razão, existe porque existe!, chega sem avisar e ocupa todo o espaço, sem dar tempo de chamar ajuda e nem mesmo de acionar as defesas.

E foi numa dessas invasões que a tristeza levou Linda. Não sei se avisou que estava chegando, se não foi ouvida ou foi ignorada, o que sei é que Linda, a menina triste se foi. E ao que tudo indica, se foi ao ser engolida pela tristeza que sempre a acompanhou.