o menino da bola

bola

Essa imagem me intrigou e provocou diversos sentimentos, pensamentos e sensações.

Na primeira olhada, senti uma tristeza muito forte, tristeza da solidão de cada um daqueles meninos, começando pelo menino da bola e passando por todos os outros.

Em seguida, surgiu a dúvida: “quem é o diferente aí?” ou seria: “quem é o (in)adequado nessa situação?”.

E logo me dei conta, que a melhor resposta para o meu questionamento seria: “depende do ponto de vista!”.

Do ponto de vista dos garotos, é provável que o menino da bola seja o inadequado, o diferente, o esquisito.

Do nosso ponto de vista de adultos, que “sabemos o que é importante”, certamente surgiriam diversos discursos defendendo a necessidade de todos jogarem juntos, e justificando a importância de tirar essas crianças do virtual, e garantindo que é fundamental que os meninos brinquem em grupo e aprendam a dividir, e outros tantos…

Seja qual for nosso olhar para a situação o mais comum é pensarmos em certos e errados, adequados e inadequados e dificilmente nos damos conta de que cada um faz suas escolhas e de que cada um tem suas preferências e peculiaridades.

Se aprendermos (e ensinarmos!) desde cedo a nos colocarmos no lugar do outro, a olhar por outros ângulos, será possível considerar nossas escolhas e diversidades e seremos, no mínimo, um povo mais tolerante e respeitoso.

autonomia capilar

Minhas filhas nasceram cabeludas (bem cabeludas!), as duas.

E desde muito cedo frequentam o salão de beleza para cortar os cabelos.

Por escolha (minha!) mantive seus cabelos curtos o máximo de tempo que consegui.

Ouvi muitas reclamações, queixas e choros, era um tal de “assim eu pareço menino”, “todas as minhas amigas tem cabelo comprido”, “por que você não deixa meu cabelo crescer?” e eu sempre me mantive firme em minha decisão de conserva-las com seus cabelos curtos, por achar muito gracioso, bastante higiênico e prático.

Foi um tal de amigas, vizinhas, parentes e mais um monte de gente me criticar, me chamar de “bruxa desalmada”, me acusar de desperdiçar os lindos cabelos que minhas filhas tem, mas nunca me importei porque sempre soube que eu sou a responsável por essas crianças, por sua higiene e bem estar.

Passados alguns anos de acusações e reclamações, considerei que estava na hora de deixa-las experimentarem o tal do “cabelo comprido” e assim foi, continuamos visitando a cabelereira para garantir franjas aparadas e pontas em ordem, mas com o objetivo de deixar os cabelos crescerem.

Hoje seus cabelos estão mais compridos do que nunca e as meninas estão aprendendo a cuidar deles e de si mesmas.

E apesar de já terem descoberto que não é tão fácil assim mantê-los sempre limpos, em ordem, bem penteados e desembaraçados, tem se dedicado a atividade e buscado cada vez mais sua autonomia capilar. 

(in)justiça!

Antonia, de 6 anos, tem brigado por justiça.

Não a justiça do caráter que está em conformidade com os direitos dos humanos e sim a justiça infantil, aquela que espera que o mundo atenda todas as suas exigências, sejam elas quais forem. 

Sempre que alguém a contraria, não atende seus desejos ou lhe nega algum pedido, surgem os brados: “isso é uma injustiça!” e/ou “injusto! Isso é muito injusto!”.

A primeira vez que ouvi uma dessas acusações me assustei, fiquei sem entender, achei muito cedo para minha filha estar falando em justiça, mas logo compreendi que o que ela estava reivindicando era o cumprimento de suas expectativas. 

Linda, a menina triste

Anteontem, dia 10 de setembro, foi o dia mundial de prevenção ao suicídio, e essa data me fez lembrar de Linda, a menina triste.

Linda era uma garota linda, loira, de família bacana e muito, muito, muito triste.

Nos conhecemos logo que entrei no colégio, Linda foi uma das primeiras a me acolher, me recebeu muito bem, compartilhou suas amigas comigo e até frequentamos uma a casa da outra durante algum tempo.

Com o passar dos anos fomos nos afastando, tínhamos interesses diversos, gostos diferentes e ainda não existiam as redes sociais que poderiam ter nos mantido mais próximas.

Apesar do distanciamento, morávamos na mesma cidade pequena, muitas vezes nos encontrávamos em situações sociais e tínhamos alguns amigos em comum. Sempre acompanhei de longe sua doce tristeza e as histórias de desespero que perturbavam seu viver.

Lembro-me perfeitamente do dia em que Linda e um outro colega de colégio chegaram no meu apartamento sem avisar… acho que era sábado de manhã, o porteiro interfonou e anunciou os dois, fiquei sem entender o que poderiam estar fazendo ali e mesmo assim autorizei que subissem. Quando chegaram pareciam ótimos, seus olhos brilhavam e me contaram que estavam namorando, iriam se casar e queriam conhecer o apartamento e o prédio para terem ideia de tamanho, vizinhança… essas coisas de apaixonados que pensam em começar a vida juntos, sabe?!?  Conversamos bastante naquela manhã e apesar do estranhamento da visita, fiquei com a sensação de que finalmente Linda teria encontrado um caminho para a alegria (anos depois soube que não fui a única a acreditar nisso!).

Algum tempo depois, Linda se casou e teve um filho (mais uma vez parecia que iria encontrar a alegria) e mesmo nos momentos felizes de sua vida, a tristeza continuava lá, fazia parte de sua história, a acompanhava o tempo todo, às vezes mais discreta, outras mais exibida, mas nunca a abandonava. 

Para quem olhava de longe, Linda era uma jovem profissionalmente ativa e respeitada, bastante sorridente, mãe de um menino lindo, casada com um cara bacana e que não teria do que reclamar.

Quando chegávamos perto percebíamos a sua tristeza, daquelas que não tem nome nem razão, existe porque existe!, chega sem avisar e ocupa todo o espaço, sem dar tempo de chamar ajuda e nem mesmo de acionar as defesas.

E foi numa dessas invasões que a tristeza levou Linda. Não sei se avisou que estava chegando, se não foi ouvida ou foi ignorada, o que sei é que Linda, a menina triste se foi. E ao que tudo indica, se foi ao ser engolida pela tristeza que sempre a acompanhou. 

a natação nos ensinou muito além de nadar!

Era uma vez, alguns anos atrás…

Antonia já ameaçou fazer natação duas ou três vezes na vida, na primeira era bebezinha e fazia aula acompanhada do pai, foram algumas aulas e em seguida ela adoeceu, gripe forte somada à alergia, e a pediatra nos orientou a parar até que se recuperasse completamente; interrompemos por algum tempo e na volta… de novo a tal alergia estava lá, a fez sofrer, nos cansou e paramos mais uma vez.

Naquele verão decidimos que era a hora, não dava mais para ela e Luisa, a irmã, ficarem sem saber nadar. Precisavam pelo menos conseguir “se virar” na água, afinal na casa da Nanna tem um piscinão que elas adoram, além do clube do condomínio, que é muito convidativo.

Então, fomos nós pra natação mais uma vez, agora com Luisa junto.

Tudo organizado, as aulas seriam com um professor conhecido da família. Primeira aula, ótima!, segunda fantástica!, na terceira a surpresa…  o professor entrou em férias e não avisou ninguém.

Quem disse que essas crianças entraram na água, que nada, ninguém quis nem saber!

Voltamos noutro dia e a mesma coisa. Paramos tudo, de novo, decidimos esperar o professor querido voltar para recomeçarmos.   

Passado algum tempo e várias recusas, enfim o dia da reestreia.

Chegamos no horário marcado, Luisa queria muito nadar e Antonia dizia que só ficaria assistindo a aula. Ok! vamos que vamos…

Luisa de maiô, touca e óculos, pronta para entrar quando de repente… travou, empacou na chegada e que nadar que nada, sem chances… então, decidimos ficar na borda, só assistindo a aula, do lado de fora mesmo.

Antonia começou a se aproximar e quis colocar os pés na água, então é melhor vestir o maiô, afinal pode ser que se molhe. Pés na água, em seguida pernas inteiras e por fim, uma brincadeira e outra, quando se deu conta estava fazendo a aula toda e Luisa lá, só assistindo.

Na aula seguinte, quase a mesma cena, Antonia entrou empolgada com as brincadeiras e atividades e Luisa, ficou de fora, só olhando o que acontecia. Mais uma ou duas aulas com o mesmo cenário, até que resolvemos chegar mais cedo, antes das outras crianças e ver o que aconteceria.

Luisa como uma habitué que não era, entrou, empoleirou no “tio” e fez a aula toda, a pequena conhecia todas as músicas e atividades, (isso me remete a outro tema importantíssimo – mesmo sem ser convidada ou sem fazer parte oficialmente do acontecimento, a criança que está por perto assiste, acompanha e assimila muito do que se passa, por isso precisamos de atenção e cuidado sempre!), Antonia dessa vez ficou mais retraída, menos a vontade, quis parar antes do habitual e até chorou alegando cansaço. Luisa saiu empolgadíssima e já se considerando uma “nadadoura” como costumava dizer.

Na aula seguinte, Luisa entrou e nem se preocupou com o entrono, já Antonia entrou e logo em seguida quis sair, chorou, chorou, chorou, disse que estava muito cansada, que não aguentava mais.  Como mãe, minha primeira ação foi dar uma forçada para que ela voltasse, mas diante de sua recusa, aceitei a situação e ficou por isso mesmo.

Dias depois, voltamos e mais uma vez Luisa entusiasmada foi para a aula, enquanto Antonia recusou-se até a vestir o maiô. A mãe aqui, com seu hábito quase automático, começou a pensar quais seriam as causas desta recusa, a primeira hipótese foi a velha e tradicional competição entre irmãs, afinal Luisa parecia mais hábil que Antonia e isso poderia estar lhe causando grande frustração, pois a irmã mais nova e que começou depois parecia ser melhor que ela.

Ah! Vale contar que esta foi a primeira atividade dirigida que elas fizeram juntas (isso mesmo!), além das brincadeiras caseiras, em família, elas não faziam nada juntas, no balé cada uma estava numa turma, na escola cada uma tinha sua classe, então a natação era a primeira atividade formal em que as duas eram do mesmo grupo, que compartilhavam regras e orientações de um mesmo professor simultaneamente.

Com essas ideias borbulhando, fui conversar com o professor, queria saber mais, e até me justificar pela saída inesperada de Antonia. E ele, a partir de seu olhar de instrutor, me contou que realmente depois que Luisa se empolgou com as aulas, Antonia passou a se retrair e não aproveitar tanto, e que ele notava uma preocupação excessiva dela com a irmã mais nova, chegando até a chamar a sua atenção para que ele ficasse atento a sua irmãzinha.

Olha só! Eu preocupada com a competição fraterna e na verdade o que a estava angustiando era a preocupação a proteção; não que uma seja melhor ou pior que outra, são apenas sentimentos e vivências diferentes que a relação entre irmãos proporciona em nossas vidas.

Pensei, pensei mais um pouco e resolvi me organizar, e me sacrificar (no melhor sentido!), para que cada uma ficasse em um horário diferente de natação. Combinei com Antonia que a levaria em outro dia pela manhã, afinal no fim da tarde ela dizia estar muito cansada. E como sabemos quando estamos cansados (ou com fome, ou sono) nossos sentimentos e sensações ficam exacerbados e nos fazem sofrer muito mais.

Chegou o tal dia e a surpresa novamente, recusa total de ir à aula. Conversei e quis saber mais, mas sem chances.  Estive a ponto de desistir da ideia de natação, tive receio de que forçando Antonia ficasse mais arisca à água e passasse a ter medo de piscina, mar e outros meios aquáticos. Mas não! Resolvi que continuaria insistindo, pois meu objetivo era que elas aprendessem a nadar, como sobrevivência, se depois disso quiserem ter a natação como esporte de escolha, ótimo!, se não, tranquilo!, pelo menos poderíamos brincar juntas sem medos ou nóias e nem boias.

Conversei daqui, dali, me informei e resolvi leva-la para a aula de uma “tia”, que já havia sido sua professora em outra ocasião. Quando chegamos, quem estava na piscina era “outra tia” (confesso que fiquei tensa!) que a recebeu com atenção e começou a aula. No inicio estava retraída, mas com os minutos foi se soltando até que estava completamente solta e desenvolta (ufa!).

Parece que, para Antonia, a atenção e o cuidado feminino da “tia” tornaram o nadar possível e suportável e assim ela conseguiu se soltar e passou a se arriscar.

Algumas aulas depois, por questões práticas,  Antonia e Luisa voltaram a fazer aula juntas e assim seguem até hoje.

 

visita indesejada

Escarlatina!

Até ontem, era apenas uma das palavras da música dos Titãs.

Hoje é uma visita indesejada que nos incomoda, aqui em casa.

Não que ela tenha chegado agora, está conosco há alguns dias, mas só ontem descobrimos seu nome, sobrenome e características.

Visita que não convidamos, veio por conta própria e nem sabemos de onde.

Chegou sem avisar, se instalou, nos pegou de surpresa… mas agora que já descobrimos sua identidade, estamos cuidando para que vá embora o mais rápido possível e não deixe rastros.

Certamente, algumas lembranças vão ficar, afinal sempre que uma dessas visitas passa por aqui aproveitamos para criar novas rotinas e momentos inesquecíveis.